Meio Seinfeld, meio Mulholland Drive. Meio Lost, meio Marley e Eu. Meio cachorra com pedaços de Nouvelle Vague. Mais curva que reta, mais Darwin que Deus, mais Brigitte que Bardot. Dividida entre línguas, cabeça, tronco e membros. Às vezes em português, às vezes numa língua que não é a minha, mas que adotei pra entender um pedaço da primeira, que sou eu.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um dia de sol

Ok, é legal abrir a janela e dar de cara com aquele troço amarelo, cheio de vida que é o sol. Mas eu, particularmente, prefiro nuvem. Prefiro mesmo. Esse negócio de calor e veraneio talvez seja pra gente de bem. Eu, que acordo às vezes assim, às vezes assado, gosto mais do intermediário. Eu acordo e vejo o sol gritando do lado de fora, já penso em gente rindo, gente cheia de gotas de suor pelo corpo, gente disposta a coisas e mais coisas. Ok, eu sou do tipo que ri. Gosto. Rio mesmo, acho a vida uma maravilha, mesmo triste de vez em quando. Mas não quero obrigação. Na verdade, rio mais no cinza. É uma calma própria pra ser feliz, porque parece opção. Felicidade de verão é cerveja de graça, biscoito Globo, coisa de carioca. Agora: no dia cinza, você tá feliz? É lucro.

Pensando nisso tudo, abri um romance pequenininho, pra ler bem rapidinho no dia ensolarado, pra ver se eu encontrava de novo a alegria do chumbo. Bom, o livro era Notas do Subterrâneo, do Dostoievsky. Eu começo a ler aquele treco e meu coração vai disparando, parecendo querer saltar da boca e eu paro e penso: eu já escrevi uma coisa tão parecida com isso. Esse cara da primeira pessoa do Dostoievsky é muito parecido com o cara da primeira pessoa do meu primeiro livro (ainda não publicado). Coisa louca, vou prosseguindo, os raios desesperados do outro lado da janela querendo me abocanhar, precisei parar. Falei “não, assim não é possível”, cadê você, Dostoievsky, que a gente não se encontrou por aí. Pra mim, não se encontrou mesmo, porque além de não acreditar no sol, também não acredito em outra vida, nem deus, nem nada. Mas fiquei encafifada, com medo de abrir mais uma página, medo de encontrar palavras minhas – e com isso, não estou me comparando a Dostoievsky, sou menina e de somenos importância, mas o choque acontece sempre que alguém disse alguma coisa que você já quis dizer ou até mesmo disse, de verdade.

Mudei de livro, peguei o meu. Manuscrito. E folheei e folheei. E tava lá. A parecença. O pessimismo. Mas é um pessimismo animado, um pessimismo confiante, um pessimismo de quem gosta de viver. Só quem gosta de viver pode falar mal da vida; quem vive mal, não tem escolha. Assustada, liguei pra uma amiga. Ela me pediu exemplos. Eu dei: ele diz que a gente pode deduzir o panorama mediano de satisfações humanas através de estatística e análises sócio-científico-econômicas. Eu digo: “Como eu não sou exatamente um homem, nem mesmo no bom sentido do substantivo, ou do que quer que seja ser um homem, não podia fazer isso. Eu nunca tinha sido tão exato. Tão simples. Tão encaixado. Eu sou desajustado, desordenado, desmascarável. Homem em desarranjo.” Ele diz que é um homem mau, ou age como tal, mas que pode ser agradado e visto como uma pessoa de bem. Eu digo: “Se você é mau, sempre pode ser bom. Você só precisa de um espelho. Alguém em quem se inspirar. Um modelo.” Enfim, tendo ou não tendo a ver de verdade, eu achei que tinha. E a minha amiga também. Aí, ela falou que eu devia ir numa cartomante. Cartomante? É. Cartomante, centro espírita, mesa branca, terreiro, qualquer um. Pra tentar um contato. Contato? Eu não acredito em nada disso. Não é uma questão de acreditar, ela falou, tem certas coisas na vida que não respeitam crença nem medo. Elas são. Você tem que se comunicar com esse homem.

Eu desliguei o telefone como quem recebeu uma notícia de morte. Pra que eu tinha que inventar de ler Dostoievsky num dia de sol? “Emimesmada”, não parei de pensar no assunto. Até na cartomante eu pensei. Mas primeiro fui atrás do Google. Li coisas e mais coisas sobre ele. Ele mesmo. O Dostoievsky. E cada coisa que eu lia me dava mais a sensação de proximidade. Se estivesse chovendo, aposto que eu não seria tomada dessa maneira. O fato é que peguei de novo Crime e Castigo. Peguei de novo O Idiota. Peguei de novo o Notas. E peguei o telefone.

Quando dei por mim, tava olhando pra cara de uma tal de Samantha, no Catete. Samantha, obviamente, me disse: “Tem um homem na sua vida.” E eu, mesmo sabendo que essa é a frase-chave de toda cartomante que se preze, respondi. “Tem, Samantha, pior que tem.” Aí ela começou a arriscar, louro, ruivo ou moreno, e eu tentando explicar que era coisa de outra vida, e ela dizia “é, sim”, e eu tentava explicar que não era nesse sentido, o sentido era outro, e ela me mandava calar a boca, pra poder ouvir o que a carta soprava no ouvido e eu dizia que precisava de um contato direto e ela respondia “minha filha, isso não é assim, não.” Mas acabou dizendo que o contato podia ser arranjado, bastava eu dar x reais, eu disse que não dava, ela disse “tudo bem, menos x”, eu reclamei, mas fiz o cheque. Marcamos pro dia tal, mês tal, dali a quatro dias.

Nem preciso dizer que os quatro dias foram quatrocentos e que eu não parei de ler o Dostoievsky e não parei de pensar no Dostoievsky e na tristeza de não ter conhecido o Dostoievsky. Rolei na cama, fui pra boate, inferninho, festa de amigo, restaurante, e nada. Só pensava no tal de antigamente. Mas os quatro dias se passaram e lá tava eu de novo, cara a cara com a Samantha. E com um balde de galinhas. Mortas. Em cima da mesa. Tipo oferenda. E Samantha dizia: “Não tá lindo, minha filha?” E eu não respondia nem nada, chocada com aquela cena de filme de terror, e ela achando que eu tava tomada de energias de amor e misticismo. De repente, me dei conta de que a Samantha tava estalando dedos na minha frente. “Tem que pegar no coração, minha filha”. “Oi?” “No coração. Tem que pegar no coração da galinha.” “Pra quê”? “Você agarra no coração da galinha, o bofe agarra de afeição em você.” Socorro, eu pensei. E eu lá quero fantasma (mesmo que eu não acredite) agarrando afeição em mim? “Sabe o que é, Samantha? Na verdade...” “Pega, garota, não morde, não.” Eu não sei se ela achou que eu queria morder o coração ou se tava usando a expressão por usar, mas eu fechei o olho, pensei no Raskolnikov e segurei no coração. E pensei que um coração de verdade não tem nada a ver com a representação vermelha e simpática dos desenhos e cartões de amor. Bom, os órgãos são feios, de qualquer jeito. A gente é feio por dentro. Essa baboseira de que a pessoa é bonita por dentro é tão barata. A gente fede. Pinga. Faz barulho. Se a gente é a imagem e semelhança de deus, deus é feio. É por isso que eu não acredito nele. Eu tava pensando nisso quando a Samantha me deu um tapa no braço. “Chega, garota, também não precisa esmagar. O bofe vai bater na tua porta, pode esperar.” Quando eu olhei pra bacia das galinhas... melhor não descrever. Mas era péssimo. E eu saí da casa da Samantha tão assustada que precisei entrar nas Lojas Americanas. Comprei tanto DVD de comédia romântica que se o russo não aparecesse, tudo bem, um apanhado de Hugh Grant com Ashton Kutcher, mais um pouco de Jake Gyllenhaal ia dar conta do recado.

Cheguei em casa, tomei banho, tomei sopa, liguei pra minha amiga, contei da Samantha e da galinha, ela disse que loucura, desliguei e comecei a sessão pipoca. Tava bem me divertindo com Hugh Grant e Drew Barrymore naquele filme que tem o clipe mais divertido do planeta, logo na abertura, Letra e Música, quando a campainha tocou. Eu olhei pro relógio, pensei quem será uma hora dessas, fui com certo medo até a porta e olhei pelo olho mágico. Meu coração teve de disparar quando olhei a ponta de um chapéu. A cabeça tava abaixada, mas o traje era daqueles masculinos de mil oitocentos e não me lembro. Pensei: meu Deus, é o Dostoievsky, e abri a porta.

Era a Samantha, voltando de um telegrama ao vivo (aquela coisa terrível que tem gente que contrata pra mandar mensagens em dias especiais), puta da vida, porque meu cheque tinha voltado.

PS. Quando eu digo que não se deve tentar ser feliz no sol, eu tô falando sério.