Meio Seinfeld, meio Mulholland Drive. Meio Lost, meio Marley e Eu. Meio cachorra com pedaços de Nouvelle Vague. Mais curva que reta, mais Darwin que Deus, mais Brigitte que Bardot. Dividida entre línguas, cabeça, tronco e membros. Às vezes em português, às vezes numa língua que não é a minha, mas que adotei pra entender um pedaço da primeira, que sou eu.


domingo, 17 de outubro de 2010

Domingo


Hoje era bom um namorado. Que levasse pro cinema. Que pagasse a pipoca. Escolhesse o restaurante. O prato. A sobremesa. Às vezes, é bom não fazer nada. Não ter opinião. Não ter perguntas. Nem respostas. Olhar pra parede e só ver parede. Comer doce sem pensar na esteira. Rir sem pensar nas rugas do esforço no rosto. Ouvir música sem identificar os instrumentos. Cantar letra sem soletrar sentido. Passear de carro sem pensar no flanelinha. Achar que sabe andar de bicicleta. De patins. Usar bermuda. Ouvir o barulho da rua e não querer saber o que acontece lá fora. Lá dentro. Olhar um cachorro e não pensar no seu. Ou naquele que você gostaria de ter. Pensar em nada e ver televisão. Tomar um vinho sem lembrar que pode acontecer uma ressaca. Ver o mar de ressaca e não pensar que alguém morreu. Não lembrar da morte. Olhar um telhado sem imaginar quem mora nele. De insetos a pessoas. De poeira a pingos de chuva.

Não pensar no amanhã nem no hoje. Não pensar nada mesmo.

Aí você pode perguntar o que é que tudo isso tem a ver com namorado. É que namorado, o bom, é isso tudo. É poder não fazer nada, nada. Nem de dentro pra fora, nem de fora pra dentro. É poder ter silêncio. É sem esforço. É companhia e é a calma de estar só.

Namorar é meio ir ao cinema. Uma tela grande de possibilidades na frente, a solidão de espectador (impossível ser diferente) acompanhada, e uma falta de assunto momentânea; a verdadeira paz de espírito.